
O que é real?
Ela não sabia como responder. Ás cegas teria que pedir. Mas ela queria que, se fosse ás cegas, pelo menos entendesse o que pedisse. Ela sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos é dada. É perigoso mexer com a grande resposta. Ela preferia pedir humilde, e não á sua altura que era enorme: ela sentia que era um enorme ser humano. E que devia tomar cuidado. Ou não devia? A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor.
Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama, pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor:
"Alivia minha alma, faze com que eu sinta que tua mão está dada a minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diaria, faze com que eu não te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesmo também imcompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entende-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que eu durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora da minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha. Amém." (Clarice Lispector - Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)
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