terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Incerteza


O vento vai passando, junto com os segundos, as horas, os dias. Junto com tempo. O futuro é incerto. Dar um passo adiante é como pisar em areia movediça. O futuro pode te puxar para baixo. É como dar um tiro no escuro, como ser cego mesmo enxergando.

A graça da vida é que você nunca sabe mesmo o que vai vir depois, a vida sempre pode te surpreender, embora as linhas já estejam escritas.

Às vezes penso que o tempo destrói tudo, nos tira muitas coisas, mas então, coloquemos na balança quantas coisas o tempo nos deu. Quantas oportunidades desperdiçadas porque o medo e a dor tapavam nossos olhos? Quantos sorrisos deixados para trás por raiva ou orgulho? Nós nos importamos tanto com o que virá em seguida que fechamos nossa alma para o resto e perdemos o hoje. O agora. A folha que caiu da árvore e secou, sem vida. O sorriso de alguém que nunca mais nos verá. O som das ondas, que nunca mais será o mesmo. O filme que já saiu de cartaz. O teatro que pegou fogo. O último show da sua banda preferida. O abraço que você tanto precisava. Uma palavra que emudeceu antes mesmo de se tonar audível. Os olhos que nunca mais olharão nos teus com a mesma cumplicidade. A confissão que te engasga e te sufoca. As piadas nunca mais contadas. Os choros que não limpam mais a dor. A pipoca com leite condensado e suco de uva. A bagunça e as risadas. O silêncio repentino de alegria mútua. O entendimento dos olhares.

Tudo fica para trás e nós somos obrigados a andar sempre em frente, pois o tempo não pára. Ele não nos espera ficar prontos.

Só nos resta a doce, porém cruel, saudade, que nos deixa a desejar algo que nunca vai voltar e nos impede de ver que o mundo dá voltas e se você estiver caminhando em frente, sempre haverá a chance de ver novamente aquela velha praça, o velho banco, e então, é ele! Sentado no velho banco, apenas esperando por você. Pelo momento em que novamente se encontrarão.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Rasgar a pele clara e macia. Era essa a minha vontade. Vontade que, como tantas outras, não sou capaz de fazer.
A vida inteira eu tentei fingir. Enquanto o que eu sentia era apatia, eu fingia interesse nas coisas. Eu lutava por desejos que não eram meus, chorava por motivos que eram fracos. eu vivia por outros. Eu nunca vivi a minha vida. Ela era uma farsa. Uma mentira que eu inventava para me sentir menos vazia. Eu fingia que lutava porque não tinha nada suficientemente forte para que eu lutasse. Eu nunca tive garra o bastante para viver por algo. Nunca consegui me apegar a algo suficientemente importante. Nunca aprendi a querer algo com todas as forças. Nunca quis expor meus sentimentos, nunca quis ser expressiva.
Nunca até o dia 14 de outubro de 2007. Eu descobri que respirava, sentia dor por mim mesma, odiava o mundo porque EU não gostava dele. Ficava indignada, porque Eu achava aquilo injusto. Sentia falta. Desejava. E era um sentimento meu. Ninguém poderia tirá-lo de mim.
Minha frustação ficou maior. Me sentia presa e sufocada com coisas do passado. Era totalmente incapaz de me expressar, agora que eu desejava imensamente! Eu não consegui me livrar dos traumas antigos. Me fechei para o mundo, para as pessoas, para a expressão e para o amor. Sempre me dando bem apenas com o papel e a caneta.
Mas, isso também me deixou. O papel e a caneta não mais fazem parte de mim. Eu não consigo mais escrever bem. Sinto-me uma completa inútil.
Incapaz de se expressar, incapaz de ajudar os outros, incapaz de mostrar a amor, incapaz de dizer palavras bonitas, incapaz de falar, de gritar, de lutar. Um nada. Um vazio.

domingo, 3 de fevereiro de 2008


O que é real?
Ela não sabia como responder. Ás cegas teria que pedir. Mas ela queria que, se fosse ás cegas, pelo menos entendesse o que pedisse. Ela sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos é dada. É perigoso mexer com a grande resposta. Ela preferia pedir humilde, e não á sua altura que era enorme: ela sentia que era um enorme ser humano. E que devia tomar cuidado. Ou não devia? A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor.
Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama, pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor:
"Alivia minha alma, faze com que eu sinta que tua mão está dada a minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diaria, faze com que eu não te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesmo também imcompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entende-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que eu durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora da minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha. Amém." (Clarice Lispector - Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Tempo...

Os dias passaram. Rápidos. Sinto-me velha. Como se houvessem passado séculos. Nada é como antes. Um minuto já se passou e eu não sou mais a mesma. Tudo muda muito rápido. O tempo é cruel. Ele nos pede para esperar e continua andando. Seria justo?